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A Copa do Brasil trocou uma decisão em casa por um evento — e o torcedor é quem paga a diferença

A Copa do Brasil trocou uma decisão em casa por um evento — e o torcedor é quem paga a diferença

A Copa do Brasil volta agora em agosto com o mata-mata retomado depois da pausa da Copa do Mundo, e vale lembrar o tamanho da mudança que está em curso. A edição de 2026 é a mais reformulada da história do torneio: 126 clubes contra os 92 das últimas temporadas, cinco fases iniciais e, pela primeira vez, uma final em jogo único, marcada para 6 de dezembro.

Cada uma dessas alterações tem uma justificativa defensável. Juntas, elas mudam a natureza da competição — e não só para melhor.

Como o torneio ficou

O desenho novo funciona assim:

  • Da primeira à quarta fase, confrontos eliminatórios em partida única. Empate no tempo normal vai direto para os pênaltis.
  • Quinta fase, oitavas, quartas e semifinais seguem em jogos de ida e volta.
  • A final é em partida única, em campo definido pela CBF, no modelo já adotado por Libertadores e Champions League.

Além disso, a Copa do Brasil passa a distribuir duas vagas para a Libertadores a partir desta edição.

O que a CBF ganha — e não é pouco

Vamos ser justos: a final única resolve problemas concretos.

O calendário brasileiro é notoriamente congestionado, e cada rodada eliminada de um mata-mata devolve uma data que estava travada. Com Brasileirão, Libertadores, Sul-Americana e Copa do Brasil disputando o mesmo dezembro, um jogo a menos na decisão não é detalhe — é margem de manobra para todo mundo.

Há também a lógica comercial, que ninguém precisa fingir que não existe. Uma decisão em jogo único vira produto. Vira cidade-sede disputada, pacote de patrocínio único, transmissão global concentrada, semana de eventos paralelos. Duas partidas em cidades diferentes valem menos, comercialmente, que um evento com data e endereço fixos. A Libertadores provou isso, e a CBF está copiando um modelo que funcionou.

E a ampliação para 126 clubes tem um mérito real de política esportiva: mais times pequenos entram, mais cidades recebem jogo de clube grande, mais gente vê a competição de perto. Para o futebol do interior, isso vale dinheiro e visibilidade.

O que se perde

Agora a outra metade da conta.

A decisão em casa acabou. Durante décadas, o maior prêmio simbólico da Copa do Brasil para um clube médio não era o troféu — era levantar o troféu diante da própria torcida, no próprio estádio. Um Paysandu, um Juventude, um Athletico que chegasse à final tinha garantido pelo menos uma noite histórica em casa. Isso deixou de existir. A final única transfere essa noite para uma sede escolhida por critérios administrativos.

A receita de bilheteria muda de mãos. Numa decisão em ida e volta, os dois finalistas vendem uma casa cheia cada. Em jogo único, a arrecadação passa a ser dividida sob outras regras e boa parte da capacidade vai para o mercado corporativo e para o público neutro da cidade-sede. Para um clube com folha apertada, essa diferença aparece no balanço.

O torcedor viaja ou não vai. Este é o ponto que costuma sumir da discussão. Numa final de ida e volta, o torcedor que não tem dinheiro para viagem ainda assistia a um jogo da final ao vivo. Agora, se o clube dele decide a 2.000 quilômetros, a opção é a televisão. A democratização do acesso ao mata-mata na primeira fase convive com o encarecimento do acesso à decisão.

E o mata-mata inicial ficou mais cruel. Jogo único da primeira à quarta fase amplia a chance de zebra — o que é ótimo para a narrativa — mas também significa que um clube da Série A pode cair em 90 minutos ruins, sem chance de resposta. Isso aumenta a variância e reduz o valor da consistência ao longo do ano. Se você acha que futebol deve premiar quem é melhor no conjunto, o formato novo trabalha contra você.

O precedente que a CBF está copiando

Nada disso é invenção brasileira. A Conmebol adotou a final em jogo único na Libertadores e na Sul-Americana a partir de 2019, e a mudança fez exatamente o que prometia: transformou a decisão em um evento global, com cidade-sede definida com antecedência, pacote comercial próprio e transmissão concentrada em uma única janela.

Também produziu o efeito colateral previsível. Finalistas passaram a levar torcida para outro país, o custo do ingresso para a decisão subiu, e a noite de glória em casa deixou de existir como possibilidade. Quem acompanha o torneio continental há tempo suficiente reconhece o roteiro que a Copa do Brasil está prestes a repetir.

O modelo europeu, com final única da Champions em sede rotativa, é a referência última — mas ali o desenho nasceu assim, e a cultura de torcida se organizou em torno dele desde o começo. Trocar um formato consolidado por outro é diferente de nunca ter tido o primeiro.

E para os clubes pequenos?

A expansão para 126 participantes é o contraponto positivo mais forte da reforma, e ele é concreto.

Cada clube que entra recebe cota de participação da CBF, e para times de Série C, Série D e estaduais essa receita costuma representar uma fatia relevante do orçamento anual. Uma única fase avançada pode financiar folha de meses. Jogar contra um clube grande, mesmo fora de casa, gera exposição, bilheteria e visibilidade para atletas em busca de transferência.

O jogo único nas quatro primeiras fases também favorece o azarão em termos probabilísticos: em 90 minutos, a diferença técnica pesa menos do que em 180. É uma das poucas competições brasileiras em que o clube pequeno tem chance real de eliminar um gigante — e o novo formato aumenta essa chance, não diminui.

O que se ganha na base, portanto, é real. O que se perde está no topo, e recai sobre quem chega até o final.

O saldo

O torneio ficou mais rentável, mais enxuto no calendário e mais imprevisível. Três objetivos legítimos, todos atingidos.

O que não entrou na planilha foi o valor da final em casa — algo que não gera linha de receita, não aparece em relatório de patrocínio e, justamente por isso, foi o primeiro item a ser cortado quando se decidiu otimizar o produto.

O jogo do dia 6 de dezembro vai ser um espetáculo. Também vai ser a primeira decisão de Copa do Brasil em que nenhum dos dois finalistas joga em casa. Vale registrar isso agora, antes que a gente se acostume e passe a achar que sempre foi assim.

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