Deixa eu te falar uma coisa antes que os saudosistas comecem a chorar no boteco. A Copa do Mundo de 48 seleções — aquela que o Joachim Löw jurou que ia "diluir" o futebol até virar água com açúcar — acabou de fechar a fase de grupos e entregar exatamente o oposto do que os profetas do apocalipse prometiam. Alemanha eliminada. Holanda eliminada. Uruguai sem vencer um único jogo. Cabo Verde nas oitavas. Se isso é diluição, me passa mais um copo, porque tá delicioso.
A gente precisa ter essa conversa com honestidade, sem a nostalgia que trava o cérebro. O formato novo é estranho, é longo, é cansativo — e mesmo assim está produzindo mais drama do que qualquer edição recente. O problema nunca foi o número de times. O problema é o medo brasileiro de admitir que caos organizado é o combustível natural desse esporte.
O que os números realmente dizem
Vamos aos fatos, porque opinião sem lastro é só barulho de mesa de bar ruim. Até 2 de julho, a competição já tinha 85 jogos disputados e 249 gols marcados. Isso é uma média que passa dos 2,9 gols por partida numa Copa — e olha que estamos falando de uma fase de grupos inflada, teoricamente cheia de "jogos de gente pequena" que iam ser goleadas chatas e previsíveis.
Pois é. As goleadas vieram, mas a previsibilidade não. O modelo é conhecido: 12 grupos de quatro, os dois primeiros avançam, mais os oito melhores terceiros colocados, fechando 32 times num mata-mata que começou lá nos 16 avos, entre 28 de junho e 3 de julho. São 104 jogos e 39 dias de torneio — a Copa mais longa da história. E é aí que mora a crítica legítima, a única que eu compro: o calendário é desumano. Jogador não é máquina, e enfiar mais uma rodada de mata-mata antes das oitavas cobra pedágio físico de quem já chega esfolado de temporada europeia.
Mas repara na diferença entre criticar o desgaste e criticar a "qualidade". São coisas distintas. O Löw falou em jogadores no limite físico e mental, e nisso ele tem razão. Só que ele emendou dizendo que a expansão ia baixar o nível técnico do Mundial — e essa parte a bola já desmentiu em campo.
A prova cabo-verdiana
Se você quer um símbolo do que o formato de 48 realmente faz, o nome é Cabo Verde. Um arquipélago com meio milhão de habitantes eliminou o Uruguai e ainda arrancou empate da Espanha. Não foi sorte de chaveamento nem "gordura" de vaga extra: foi uma seleção pequena que entrou pra jogar e mandou embora uma potência histórica.
Os puristas dirão que isso "desvaloriza" a taça. Eu digo o contrário: é justamente isso que dá sentido a uma Copa do Mundo. O torneio se chama Mundo, não Champions League das oito seleções ricas. Quando um país que a maioria não sabia localizar no mapa cala a Celeste, o futebol cumpre a função sociológica que o faz ser o esporte do planeta. A vaga extra não rebaixou o nível — ela criou a zebra que a gente vai lembrar por vinte anos.
Os gigantes que a Copa dos 48 engoliu
E aqui vem a ironia deliciosa. O formato que supostamente ia proteger os grandes acabou sendo o cemitério deles. A Alemanha caiu. A Holanda de Cruyff, de Van Basten, de toda aquela tradição laranja, foi eliminada nos pênaltis pelo Marrocos — os mesmos marroquinos que em 2022 já tinham avisado que não vieram pra figurar. O Paraguai despachou a Alemanha nas penalidades. O Uruguai, com todo o pedigree, deu adeus sem vencer sequer uma partida. A Turquia e a Tchéquia, cercadas de expectativa, afundaram na lanterna dos seus grupos.
Me diz onde está a diluição nisso. Um formato "fácil demais" não elimina Alemanha e Holanda antes das quartas. O que aconteceu é que 48 seleções significam mais jogos, mais fadiga acumulada, mais pontos de ruptura onde o favorito tropeça. A margem de erro encolheu justamente para quem se achava grande demais para errar. Isso não é bug. É a melhor feature que essa reforma podia ter.
A polêmica que a FIFA acertou por acidente
Vale lembrar um detalhe técnico que quase ninguém comenta no bar. O formato original aprovado era de 16 grupos de três. A FIFA voltou atrás em 2023 e adotou os 12 grupos de quatro porque grupos de três abriam a porta para conluio — dois times combinando o resultado na última rodada, já que não haveria jogos simultâneos. Nos grupos de quatro, as duas partidas decisivas acontecem ao mesmo tempo, e o "combinado" fica praticamente impossível.
Foi uma correção acertada, e ela é parte do motivo pelo qual a fase de grupos teve dentes de verdade. Ninguém pôde administrar resultado no sofá. Todo mundo teve que jogar até o apito. Dá pra criticar muita coisa na Gianni Infantino & Cia., mas essa decisão específica salvou a integridade esportiva do troço.
O que ainda está em jogo — e por que eu não tiro o olho
Agora o torneio entra na fase que separa homem de menino. As oitavas de final vão de 4 a 7 de julho, as quartas entre 9 e 11, semifinais em 14 e 15, e a decisão no dia 19 no MetLife, em Nova Jersey. É a reta em que o formato para de ser abstração e vira drama puro de mata-mata.
E tem duas histórias individuais que sozinhas justificam ligar a TV. Messi lidera a artilharia com seis gols nesta edição e já se cravou como maior goleador da história das Copas — o cara chegou aos 38 anos escrevendo epílogo de lenda. Empatado com ele, Mbappé, que alcançou os 16 gols em Copas somando todas as edições e encostou no alemão Klose como segundo maior artilheiro da história do torneio. Dois monstros, duas gerações, correndo lado a lado pela mesma taça e pela mesma linha do recordista Miroslav Klose. Se você não acha isso emocionante, talvez o problema não seja o formato — talvez seja você.
Tem ainda o fenômeno Haaland, que chegou às oitavas com cinco gols pela Noruega (dois contra o Iraque, dois contra Senegal) e foi poupado na derrota pra França justamente para chegar inteiro no mata-mata. O norueguês vira, na largada da fase decisiva, a principal ameaça na frente do Brasil de Ancelotti, que passou pelo Japão por 2 a 1 e agora encara o artilheiro do City no domingo. É o tipo de confronto que o formato antigo, mais enxuto, talvez nem produzisse tão cedo.
O veredito de mesa de bar
Eu entendo a resistência. Copa nova mexe com memória afetiva, e memória afetiva é conservadora por natureza. Mas separa o joio do trigo: a crítica ao calendário é procedente e a FIFA vai ter que resolver o desgaste dos atletas antes que alguém se machuque feio por pura ganância de datas. Já a crítica à qualidade morreu em campo. Cabo Verde matou. Alemanha e Holanda enterraram.
O futebol não fica menor quando cabe mais gente na festa. Ele fica menor quando a gente decide, por preguiça de pensar, que só oito seleções ricas têm o direito de sonhar. A Copa dos 48 é caótica, é cansativa, é imperfeita. E é, disparada, a coisa mais divertida que o Mundial fez em anos. Passa o copo — e liga a TV, porque o melhor ainda vem por aí.