Deu Espanha e Argentina. Se você montou seu bolão em junho apostando num Brasil x França, rasgue o papel e sente-se: a final de domingo, às 16h de Brasília, no MetLife Stadium, é entre a seleção que é dona do mundo e a seleção que é dona da Europa. E isso, por mais banal que soe na boca dos narradores, nunca tinha acontecido antes.
A conta que nunca fechou antes
A Argentina chega como campeã mundial em exercício, título conquistado em 2022. A Espanha chega como campeã europeia em exercício, taça levantada em 2024. É a primeira final de Copa do Mundo da história a reunir os dois campeões continentais simultâneos. Some a isso o fato de que as duas ocupam os dois primeiros lugares do ranking da FIFA e você tem, no papel, a decisão mais equilibrada que este torneio poderia produzir.
O detalhe que interessa mesmo é outro. Se a Argentina vencer, ela emplaca o bicampeonato consecutivo — algo que ninguém consegue desde o Brasil de 1958 e 1962. Sessenta e quatro anos. Passaram Alemanha, Itália, França, Espanha, todas com elencos capazes de repetir, e nenhuma repetiu. Não é azar. É o desenho do próprio torneio: quatro anos é tempo suficiente para uma geração inteira envelhecer junto, e Copa não perdoa perna pesada.
Como cada uma chegou aqui
Os caminhos dizem muito sobre o que esperar no domingo.
A Espanha veio no sufoco elegante
Começou mal, ou pelo menos morno: 0 a 0 com Cabo Verde na estreia do Grupo H. Aí atropelou a Arábia Saudita por 4 a 0 e passou pelo Uruguai por 1 a 0. Nos 16 avos, 3 a 0 na Áustria. Nas oitavas, 1 a 0 em Portugal — um jogo que quem viu não esquece tão cedo. Nas quartas, 2 a 1 na Bélgica. E na semifinal, em Dallas, 2 a 0 na França de Mbappé, com gol de pênalti de Oyarzabal e outro de Pedro Porro.
Repare no padrão: 1 a 0, 1 a 0, 2 a 1, 2 a 0. A Espanha desta Copa não goleia ninguém desde a Arábia Saudita. Ela sufoca, controla a bola, empurra o adversário para trás e ganha por um gol de diferença. É chato? Para quem torce contra, é. Para quem torce a favor, chama-se controle de jogo — e nenhuma seleção sofreu tão pouco no mata-mata quanto ela.
A Argentina veio no muque
O Grupo J foi passeio: 3 a 0 na Argélia, 2 a 0 na Áustria, 3 a 1 na Jordânia. Aí começou o filme de terror. Nos 16 avos, 3 a 2 em Cabo Verde — e só na prorrogação. Nas oitavas, 3 a 2 no Egito. Nas quartas, 3 a 1 na Suíça, de novo com tempo extra. E na semifinal, em Atlanta, virou em cima da Inglaterra por 2 a 1 com o gol saindo nos acréscimos.
Ou seja: a Argentina não vence um jogo de mata-mata com tranquilidade desde que o mata-mata começou. Levou gol em todos. Precisou de prorrogação em dois. Decidiu um nos minutos finais. Isso é fragilidade defensiva ou é sangue no olho? A resposta honesta é: os dois. Essa seleção defende mal e mata bem, e no futebol de eliminatória a segunda qualidade tem valido mais do que a primeira.
O retrospecto engana
Espanha e Argentina se enfrentaram 14 vezes desde 1952. Seis vitórias para cada lado. Equilíbrio absoluto, portanto — e absolutamente inútil como previsão, porque quase nada disso foi jogado com algo em disputa.
Dois números merecem atenção. O primeiro: as duas só se cruzaram uma vez em Copa do Mundo, em 1966, e a Argentina venceu por 2 a 1. O segundo: o último encontro entre elas foi um amistoso de 2018 em que a Espanha fez 6 a 1. Se você quiser usar esse 6 a 1 como argumento, sinta-se à vontade, mas saiba que era amistoso, era outra década e era outro elenco. Serve para provocar o amigo argentino no grupo do zap. Não serve para prever nada.
Onde a final se decide
O duelo tático é claro e velho como o futebol: quem tem a bola contra quem sabe o que fazer sem ela.
A Espanha vai ter posse. Vai ter 60%, talvez mais, e vai tentar transformar isso em asfixia — empurrar a Argentina para perto da própria área e esperar o erro. O problema é que a Argentina não se incomoda nem um pouco de não ter a bola. Ela passou o mata-mata inteiro levando gol e devolvendo dois. Cedeu campo para o Egito, para a Suíça, para a Inglaterra, e saiu viva das três.
Então a pergunta que decide domingo é essa: a Espanha aguenta noventa minutos, ou cento e vinte, sem cometer o erro que a Argentina cobra? Porque a Argentina vai cobrar. Ela cobrou de todo mundo até aqui.
O segundo fator é o cansaço. A Argentina jogou duas prorrogações neste mata-mata; a Espanha, nenhuma. São sessenta minutos a mais nas pernas argentinas em quatro jogos — e isso, numa final decidida no detalhe, é a diferença entre alcançar a bola dividida e chegar meio segundo atrasado.
O apito
O esloveno Slavko Vinčić apita, com Bastian Dankert no VAR. Vinčić é um árbitro que deixa jogar mais do que a média europeia e não tem histórico de decidir final no cartão. Para um jogo que promete pegada, é um nome que agrada mais à Argentina do que à Espanha — que costuma se beneficiar quando a arbitragem protege o time que trabalha a bola.
E o Brasil?
De fora. De novo. Vamos assistir a essa final do sofá, como assistimos à de 2018 e à de 2022, e é bom que a gente encare isso sem a desculpa pronta de sempre. Enquanto a Espanha construía uma geração que sabe exatamente o que faz com a bola e a Argentina construía uma que sabe exatamente o que faz sem ela, nós fomos construindo o quê?
Fica a pergunta para segunda-feira. Domingo é dia de ver futebol.
O palpite
Vou de Argentina. Não porque jogue melhor — não joga. Mas porque essa seleção passou o torneio inteiro sendo dominada e ganhando mesmo assim, e existe uma hora em que isso deixa de ser sorte e passa a ser identidade. A Espanha vai controlar, vai ter a bola, vai chegar mais. E vai tomar um gol no contra-ataque.
2 a 1, com prorrogação no caminho. E o bi que ninguém entrega desde 1962 finalmente saindo do papel.
Se eu estiver errado, apago tudo e digo que sempre acreditei na Espanha.