O placar diz 4 a 0 e qualquer leitura apressada encerra o assunto como "vitória tranquila". Só que o Brasil x Índia amistoso, realizado no Estádio Salt Lake, em Calcutá, não foi um jogo de futebol: foi um evento de cartola fantasiado de partida internacional. A Seleção venceu, é verdade, com gols de Estêvão, Pedro e dois de Samuel Lino, mas o que ficou foi a sensação de tempo perdido, de oportunidade desperdiçada e, acima de tudo, de desprezo com quem realmente paga a conta do futebol brasileiro.
Porque o problema não é o adversário fraco. Amistoso contra seleção de ranking baixo sempre existiu e sempre vai existir. O problema é o pacote inteiro: a escolha do palco, o preço do ingresso, a ausência de qualquer conexão real com a torcida e a insistência em um modelo de gestão que trata a Seleção como produto de exportação, não como patrimônio do povo. A vitória burocrática contra a Índia, 139ª colocada no ranking da Fifa e que nunca disputou uma Copa do Mundo, escancarou isso. E não é papo de torcedor ressentido: é a mesma lógica de mercado que trata jogador como ativo e clube como planilha, como mostrou o caso Rony e a cobrança de R$ 9,5 milhões do Atlético.
O jogo que não serviu nem para o que se propôs
Um amistoso tem três funções básicas: testar variações táticas, dar ritmo a jogadores em início de ciclo e criar conexão com a torcida. O Brasil x Índia amistoso falhou nas três. O time jogou em ritmo de treino, sem senso de urgência, contra um adversário que finalizou seis vezes, apenas seis a menos que o Brasil. Leia de novo: a Índia, 139ª do mundo, chutou quase tanto quanto a Seleção.
O único chute certo brasileiro além dos gols de Lino foi de Vanderson, já nos acréscimos. Ou seja: o placar de 4 a 0 é um retrato enganoso de um jogo arrastado, sem intensidade e sem qualquer atmosfera de confronto internacional. As cadeiras vazias no Estádio Salt Lake completam o quadro. O clima de festa que a CBF prometia não aconteceu. O que se viu foi um evento esvaziado, sem alma e sem propósito esportivo claro.
Se o objetivo era aproximar a Seleção da população indiana, que há décadas se reúne para torcer pelo Brasil em Copas do Mundo, falhou também. Este foi o primeiro amistoso do Brasil na Índia e, pela forma como foi organizado, pode ter sido também o último que alguém vai querer repetir.
Ingressos a R$ 2,6 mil: a conta que não fecha para o torcedor brasileiro
Aqui os números falam mais alto que qualquer discurso. Segundo relatos da transmissão da TV Globo, o ingresso para assistir ao amistoso no Estádio Salt Lake custava cerca de 200 dólares, algo em torno de R$ 2,6 mil. A renda mensal média na Índia é de 270 dólares, segundo o site Trading Economics. Traduzindo: assistir ao jogo custava quase o salário de um mês inteiro do trabalhador indiano médio.
O resultado não poderia ser outro. Estádio com cadeiras vazias, arquibancada esvaziada e um espetáculo que só existiu para quem podia pagar. As críticas à CBF amistoso se intensificam justamente aí: não dá para vender "aproximação com o torcedor" e cobrar um preço que exclui 99% da população local. O discurso e a prática caminham em direções opostas, e a incoerência é escancarada.
E o dado mais incômodo: a CBF investiu cerca de 500 milhões de rúpias, aproximadamente R$ 27 milhões, para levar o Brasil à Índia. Vinte e sete milhões de reais gastos para jogar em um estádio com cadeiras vazias, contra um adversário de ranking 139, em um país onde quase ninguém podia comprar ingresso. Se o objetivo era financeiro, nem isso funcionou direito. Se era esportivo, menos ainda.
A geografia do abandono: estados que nunca viram a seleção de perto
Enquanto a CBF despeja R$ 27 milhões em um amistoso na Índia, estados brasileiros inteiros nunca viram a Seleção de perto. Acre, Amapá e Rondônia jamais receberam um jogo da Seleção principal em toda a história. Roraima e Tocantins também nunca tiveram essa chance. Santa Catarina, Piauí, Paraíba e Espírito Santo receberam a Seleção pela última vez nos anos 90. Sergipe? Só em 1969. Estamos falando de mais de cinco décadas de ausência.
O calendário da seleção brasileira concentra partidas no eixo Rio-São Paulo e em arenas de alto padrão, sempre com ingressos caros e sempre com a desculpa de "infraestrutura". A ausência de uma política de interiorização não é acidente: é escolha. E revela um desprezo silencioso com as regiões que sustentam a paixão nacional, que consomem futebol pela TV e que nunca tiveram a chance de ver de perto os jogadores que idolatram. É sintomático: enquanto a Seleção ignora o próprio país, o Campeonato Brasileiro segue sendo o torneio que de fato move o torcedor de norte a sul.
A pergunta que fica é simples: por que o torcedor do Acre não merece ver a Seleção, mas o investidor indiano merece? Por que o dinheiro público e privado que sustenta a CBF não retorna em forma de jogos acessíveis para quem sempre esteve lá?
Estêvão, Samuel Lino e a lógica de mercado que ignora o coletivo
Sobre Estêvão seleção: o garoto é talento puro, mas foi pouco aproveitado em um jogo sem organização tática, sem padrão de jogo e sem qualquer construção coletiva. Jogar bem em um amistoso desorganizado não desenvolve ninguém. Sobre Samuel Lino seleção: o lateral improvisado expôs, mais uma vez, a falta de planejamento para posições carentes. A comissão técnica não tem laboratório; tem vitrine.
E é exatamente isso que incomoda. A convocação midiática serve mais para valorizar atletas no exterior e alimentar o mercado de transferências do que para construir um time. Cada amistoso vira uma feira de negócios disfarçada de jogo. A CBF transforma esses encontros em vitrine de empresários, não em espaço para a comissão técnica testar, errar e corrigir. Enquanto isso, o torcedor fica com o placar bonito e a sensação de vazio.
CBF Samir Xaud: o elo perdido entre entidade e torcedor
O nome por trás da organização do amistoso é o de CBF Samir Xaud, presidente da entidade. A escolha da sede, o preço do ingresso, o adversário e o investimento passam pela sua gestão, que prioriza receita sobre legado. E o pior: não há transparência nos critérios. Não existe canal de diálogo com a torcida organizada, não há prestação de contas pública sobre como se decide onde a Seleção vai jogar.
O presidente da CBF, aliás, prometeu depois da Copa "trazer a seleção para jogar mais no Brasil do que fora, pois o povo brasileiro merece, e a gente quer resgatar essa conexão com os torcedores, um compromisso meu". Pois é. O compromisso segue no papel, enquanto o avião da Seleção continua decolando para longe. O episódio reforça a percepção de uma CBF distante, autorreferente e surda ao que acontece nas arquibancadas.
A quem serve a seleção brasileira? O debate que a CBF evita
Se a Seleção é patrimônio do povo, por que os jogos são inacessíveis e distantes? O amistoso contra a Índia não gerou receita esportiva, só financeira, e nem essa foi revertida em benefício social. A entidade prefere lucrar com a marca a construir uma conexão real com quem torce. É hora de cobrar um plano de jogos itinerantes, com preços populares e calendário que contemple todas as regiões do país.
A CBF evita esse debate porque sabe onde ele termina: na porta da sua própria gestão. Enquanto a pergunta "a quem serve a Seleção?" não for respondida com clareza, continuaremos vendo amistosos como esse, caros, vazios e sem propósito. E se você acha que exagero, vale lembrar que a própria Libertadores já se organiza para ter semifinal 100% brasileira em 2026 enquanto a Seleção joga para plateia vazia do outro lado do mundo.
O que poderia ter sido diferente (e por que não foi)
Dava para fazer melhor. Um adversário mais competitivo, um estádio em região carente do Brasil, ingressos a preços simbólicos, uso do amistoso para testar jovens em posições carentes com tempo de jogo equilibrado, envolvimento de comunidades locais e ações sociais durante a semana do jogo. Nada disso é utopia. É gestão.
A ausência dessas medidas não é acaso: é projeto de poder que trata torcedor como consumidor e a Seleção como linha de produto. Enquanto isso, o Brasil x Índia amistoso fica como retrato de uma entidade que prefere o lucro à conexão, o marketing ao futebol e o cartola ao torcedor.
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