A Conmebol rejeita o apelo do Flamengo no caso Rojo na íntegra. E não foi só o pedido principal: nem as medidas cautelares passaram. O Estudiantes segue na final da Libertadores contra o Palmeiras, dia 28 de novembro, em Montevidéu. Para quem esperava uma reviravolta de última hora, o recado veio seco.
Agora, antes de sair por aí gritando "roubo" ou "choro", convém separar o joio do trigo. Tem uma parte dessa história que é jurídica e faz sentido. Tem outra que é política, e essa cheira mal. O problema é que as duas se misturam, e é aí que a decisão da Comissão Disciplinar vira um retrato desconfortável do peso do Flamengo (ou da falta dele) na política da Conmebol. Vamos aos quatro pontos.
Ponto 1: O mérito jurídico da decisão, a liminar do CAS e a inscrição de Rojo
Vamos ser honestos: no mérito, a decisão tem respaldo. O Flamengo alegava que a inscrição de Marcos Rojo era irregular. A tese rubro-negra passava pela suposta irregularidade na inscrição do zagueiro, que, na visão do clube, invalidava sua condição de jogo.
Só que o Estudiantes tinha na manga um papelão: a liminar do CAS (a Corte Arbitral do Esporte). O CAS concedeu a liminar permitindo que Rojo fosse inscrito no jogo da volta, no Maracanã. O argumento acatado foi direto: o regulamento da Conmebol atribui a cada associação nacional definir se o atleta tem condição de jogo, e a AFA, a federação argentina, atestou a condição de Rojo. Com essa liminar na mão, o Estudiantes escalou o zagueiro, e a Comissão Disciplinar entendeu que ele estava regular e apto no momento da partida.
Ou seja: a Comissão Disciplinar não julgou se houve inscrição irregular. Julgou se, com a liminar do CAS valendo, Rojo podia entrar em campo. Podia. O mérito de verdade, se houve irregularidade, ainda está pendente no CAS. E aqui está o ponto que muita gente confunde: a decisão da Conmebol não absolve o Estudiantes de culpa, apenas reconhece que a liminar respaldava a escalação no momento do jogo. Juridicamente, faz sentido. O Flamengo discorda, e tem direito de discordar, mas a tese da Conmebol não é absurda. Se quiser entender como esse imbróglio mexe com a tabela do mata-mata, vale lembrar o que está em jogo na corrida por uma semifinal 100% brasileira na Libertadores 2026.
Ponto 2: O timing da decisão e a assimetria de tratamento
Agora, o cheiro de queimado vem do timing. O protesto foi apresentado em 23 de outubro, um dia depois do jogo da volta. A decisão saiu posteriormente, e saiu rejeitando tudo de uma vez: o pedido principal e as medidas cautelares. Nenhum dos pedidos foi acolhido. Nem um efeito suspensivo para segurar a poeira. Nada.
Compare com outros casos de escalação irregular na Conmebol. A entidade já foi cobrada por critérios opacos em situações semelhantes. Aqui, a sensação é de que o Flamengo foi ignorado na íntegra, e o Estudiantes pôde se preparar para a final sem pressão, sem o fantasma de uma virada de mesa. O timing beneficiou o rival argentino, que já está em ritmo de decisão enquanto o Flamengo ainda digere a eliminação nos pênaltis no Maracanã. A ferida rubro-negra tem nome e sobrenome, e o alerta do Vasco no jogo de ida ainda serve de lição para o Flamengo quando o assunto é não deixar pontos na mesa.
E tem a provocação. O Estudiantes soltou uma nota com ironia: "¡Nos vemos el 28, familia!". É deboche puro. E o Flamengo, que protestou formalmente, foi ignorado. A assimetria é escancarada: um clube protesta e é tratado como se não existisse; o rival provoca e é tratado como parceiro de festa. Isso não é justiça processual. É recado político.
Ponto 3: O peso político do Flamengo na Conmebol e a falta de governança
Aqui a gente precisa falar de poder. O Flamengo tem histórico de embates com a Conmebol. Já questionou critérios de arbitragem e calendário. É um clube que incomoda. E, na política do continente, incomodar tem preço.
A decisão da Comissão Disciplinar pode ser lida de duas formas. A primeira: justiça processual, o CAS mandou, a Conmebol obedeceu, fim. A segunda: perseguição política, o Flamengo protesta e é ignorado, enquanto o rival é poupado de qualquer desgaste. Eu não tenho bola de cristal para saber a intenção, mas o padrão de comportamento da entidade ao longo dos anos deixa a segunda leitura, no mínimo, plausível.
O que fica claro é a falta de governança. Critérios opacos, prazos que não são respeitados, ausência de diálogo com os clubes. A Conmebol decide quando quer, como quer, e quem discorda que se vire no CAS. Só que o CAS também tem seus tempos, e o calendário do futebol não espera. O resultado é esse: uma final de Libertadores entre Palmeiras e Estudiantes confirmada, mas com a instituição Conmebol exposta como frágil. A decisão confirma o Estudiantes em campo, mas não resolve a desconfiança fora dele. Do outro lado, o Palmeiras já faz as contas da revanche contra o Estudiantes, e cada detalhe dessa novela pesa no clima da decisão.
Ponto 4: O que o futebol brasileiro aprende sobre negociar poder no continente
O caso Rojo é uma aula para os clubes brasileiros. A lição número um: confronto direto com a Conmebol, sozinho, não funciona. O Flamengo protestou, foi rejeitado na íntegra, e ainda levou deboche. A lição número dois: alianças políticas e pressão conjunta valem mais do que notas oficiais. Se os clubes brasileiros se articulassem de verdade, com uma pauta comum, o peso seria outro.
A lição número três: uso estratégico do CAS. O Estudiantes foi esperto. Correu para a Corte, conseguiu a liminar, e a liminar virou escudo. O Flamengo tentou o caminho institucional dentro da Conmebol e bateu na trave. Não é questão de estar certo ou errado, é questão de saber onde e quando pressionar.
E a lição número quatro, talvez a mais dura: o Flamengo precisa repensar sua estratégia de confronto direto. Brigar com todo mundo ao mesmo tempo pode até render torcida, mas não rende decisão favorável. Articulação com outros clubes, construção de maioria, uso inteligente do calendário e dos instrumentos jurídicos. O caso Rojo é o retrato do peso (ou da falta dele) do Flamengo na política da Conmebol. E o retrato não é bonito. Quem acompanha o noticiário do dia a dia, como o da TV Copa, sabe que esse tipo de bastidor costuma render mais capítulo.
Perguntas frequentes
O que acontece se o CAS condenar Rojo por inscrição irregular? Se o CAS definir que houve inscrição irregular, as punições serão aplicadas nas próximas partidas, não mudam o passado. Ou seja, a semifinal contra o Flamengo não seria revertida. Rojo pode ficar fora da final se houver condenação, o que impactaria diretamente o Estudiantes contra o Palmeiras.
A decisão da Conmebol absolve o Estudiantes? Não. A Comissão Disciplinar julgou apenas se Rojo podia entrar em campo com a liminar do CAS valendo. O mérito sobre a inscrição irregular ainda está pendente no CAS.
Por que a liminar do CAS foi tão decisiva? Porque o regulamento da Conmebol atribui a cada associação nacional definir se o atleta tem condição de jogo. A AFA atestou a condição de Rojo, e o CAS concedeu a liminar. Com isso, a Conmebol entendeu que ele estava regular e apto no momento da partida.
O Flamengo ainda pode recorrer? O clube pode buscar outras instâncias, mas o caminho é estreito. A decisão da Comissão Disciplinar foi pela rejeição integral, e o CAS ainda vai julgar o mérito. O Flamengo pode tentar pressão política, mas o cenário é desfavorável.
Quando é a final da Libertadores? Dia 28 de novembro, em Montevidéu, entre Estudiantes e Palmeiras. Cada finalista terá 12 mil entradas, e a venda ao público geral começa em 2 de novembro.
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