Tem coisa que dói mais do que ver um ídolo envelhecer. É ver o ídolo não aceitar que envelheceu. E é exatamente aí que a gente está com o Cristiano Ronaldo na seleção portuguesa: no meio de uma Data Fifa que deveria ser só mais uma, o capitão pegou as malas e foi embora antes da hora, incomodado por estar no banco. Não é lesão. Não é problema pessoal. É banco de reservas. E isso, para quem passou duas décadas sendo o primeiro nome da escalação, virou motivo para deixar a concentração.
O episódio é grave não pelo que aconteceu em campo, mas pelo que revela fora dele. O homem que construiu a imagem do capitão exemplar, do líder que motivava os companheiros mesmo sem jogar, agora aparece como o jogador que abandona o grupo quando não é protagonista. E a pergunta que fica, incômoda, é simples: o ídolo ainda está acima do time, ou estamos assistindo ao fim de um ciclo?
O capitão exemplar que Portugal aprendeu a amar
Durante quase vinte anos, Cristiano Ronaldo foi a seleção portuguesa. Não só pelos 146 gols, número que faz dele o maior artilheiro da história das seleções, mas pela forma como carregou um país nas costas em momentos em que ninguém mais acreditava.
A Eurocopa de 2016 é o retrato definitivo disso. Na final contra a França, CR7 saiu lesionado depois de uma dividida com Dimitri Payet. Qualquer outro jogador teria ido para o vestiário, tomado um banho e assistido ao jogo de lá. Ele não. Ficou na beira do campo, na área técnica, gesticulando, orientando, empurrando o time. Na prorrogação, quando Éder fez o gol do título, a imagem que ficou foi a do capitão lesionado comandando o grupo como um segundo treinador. Na celebração, discursou para o elenco dizendo que a conquista coletiva estava acima de qualquer prêmio individual. Aquele dia, juro, parecia o resumo perfeito do que um líder deveria ser. Se você quer entender como esse tipo de drama se repete em competições de mata-mata, vale lembrar por que o mando de campo virou enfeite na Libertadores.
Não foi um caso isolado. Nas quartas contra a Polônia, foi ele quem pegou João Moutinho pelo braço e praticamente o obrigou a cobrar o pênalti decisivo. Moutinho cobrou, converteu, Portugal avançou. Na Liga das Nações de 2019, mesmo em um papel menos protagonista, seguiu como a voz que unia o grupo. Essa imagem de líder incontestável virou parte da identidade do jogador e da própria seleção. Portugal aprendeu a se enxergar através dele.
Os episódios que mancham a biografia: braçadeira, banco e desentendimentos
Só que essa biografia tem páginas que não combinam com o resto do livro. E elas não são tão raras quanto a gente gostaria de acreditar.
Em 2021, em duas oportunidades, frustrado com resultados ou com a arbitragem, Cristiano pegou a braçadeira de capitão e jogou no chão. Em uma delas, chegou a chutá-la. A braçadeira, aquele símbolo que ele mesmo ajudou a valorizar, virou objeto de despeito. A repercussão negativa foi imediata, mas a imagem ficou gravada.
Em 2022, veio o atrito com Fernando Santos. A relação azedou.
Agora, em 2025, o roteiro se repete com Jorge Jesus. CR7 ficou no banco, se desentendeu com o treinador e deixou a delegação no meio da Data Fifa. Não se despediu do elenco. Não deu explicação pública além de um post nas redes dizendo que, a seu tempo, diria a verdade aos portugueses sobre as razões da saída. O jornalista espanhol Edu Aguirre, amigo do jogador, afirmou que Jorge Jesus teria pedido desculpas e prometido repetir o gesto em coletiva, o que não aconteceu. CR7 teria entendido como traição e optado pela atitude extrema. É a versão do entorno dele, que não quis entrar no real motivo. Cabe a Jorge Jesus apresentar a sua.
O que fica é um padrão: frustração visível, isolamento e questionamentos sobre liderança. O capitão que unia agora divide.
O contraste que expõe a crise: líder ou problema?
Coloque as duas imagens lado a lado. Em 2016, lesionado, ele ficou. Em 2025, no banco, ele foi embora. Em 2016, puxou Moutinho para cobrar o pênalti. Em 2025, não esperou o jogo terminar para deixar a concentração. Em 2016, discursou sobre o coletivo. Em 2025, o gesto foi individual.
A idade explica parte disso. Aos 41 anos, Cristiano já não é o jogador que decide sozinho. O corpo cobra, o ritmo cai, e o banco de reservas, para quem foi titular absoluto por duas décadas, é uma realidade difícil de engolir. Mas explicar não é justificar. Outros grandes jogadores envelheceram em seleções e aceitaram papéis menores sem transformar isso em crise institucional. A diferença é que CR7 nunca aceitou ser coadjuvante. E talvez nunca vá aceitar.
A imprensa portuguesa já aponta que ele pode não vestir mais a camisa de Portugal. A torcida, dividida, oscila entre a gratidão eterna e o cansaço com o drama. E a pergunta que não quer calar: o ídolo ainda está acima do coletivo, ou o coletivo já não o sustenta?
Fim de ciclo? O que resta para Cristiano Ronaldo na seleção
O futuro imediato é incerto. Portugal joga nesta quinta-feira (1) com a Dinamarca e depois, no domingo (4), contra a Noruega. Se CR7 será convocado, se aceitará o banco, se voltará a vestir a camisa, ninguém sabe. O que se sabe é que a relação com a seleção está fraturada. E fraturas assim raramente se curam com um pedido de desculpas.
O impacto no grupo também pesa. Jovens jogadores que cresceram idolatrando CR7 agora observam o ídolo abandonar a concentração porque não foi titular. Que exemplo é esse? A liderança que se constrói em campo e no discurso precisa se sustentar nos momentos ruins. E é justamente nos momentos ruins que a máscara cai. Para entender como esses ciclos de ídolos e times se renovam em outras competições, dá uma olhada em como funciona o Campeonato Brasileiro de futebol.
A transição é necessária. Portugal precisa aprender a jogar sem Cristiano Ronaldo, e ele precisa aprender a ser lembrado sem ser o centro das atenções. O fim de um ciclo é inevitável. A forma como ele termina, não. Se CR7 sair pela porta da frente, com respeito e gratidão, seu legado será eterno. Se sair pela porta dos fundos, deixando um rastro de atritos e mágoas, a história será mais dura com ele do que ele imagina.
A verdade que ele prometeu contar aos portugueses vai chegar. A questão é se ela vai ajudar a reconstruir a ponte ou se vai queimá-la de vez.
Perguntas frequentes
Cristiano Ronaldo deixou a concentração de Portugal? Sim. Ele deixou a delegação no meio da atual Data Fifa, incomodado por estar no banco de reservas e após se desentender com o técnico Jorge Jesus.
Por que Cristiano Ronaldo saiu da seleção portuguesa? A versão do entorno do jogador é que ele se sentiu traído após Jorge Jesus não cumprir a promessa de pedir desculpas publicamente. O técnico ainda não apresentou sua versão.
Quantos gols Cristiano Ronaldo tem pela seleção portuguesa? 146 gols, o maior artilheiro da história de Portugal e de todo o futebol de seleções.
Quais títulos Cristiano Ronaldo conquistou com Portugal? Eurocopa 2016 e Liga das Nações 2019 e 2025.
Cristiano Ronaldo vai jogar contra a Dinamarca e a Noruega? Não se sabe. A mídia portuguesa aponta que ele pode não vestir mais a camisa de Portugal.
Qual a idade de Cristiano Ronaldo? 41 anos.
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