A dependência da Inglaterra em Kane e Bellingham expõe fragilidade tática de Tuchel
A Inglaterra está na Copa do Mundo, mas parece carregar uma mochila cheia de tijolos. Depois de suar para vencer a República Democrática do Congo por 2 a 1 nas oitavas de final, ficou claro para qualquer um que viu o jogo: essa seleção inglesa é refém do brilhantismo de Harry Kane e Jude Bellingham. Não é exagero, é dado concreto: a dependência da Inglaterra em Kane e Bellingham é tão gritante que assusta quem sonha com o hexa.
Ter dois jogadores de classe mundial é privilégio, mas a linha entre "ter estrelas" e "ser dependente delas" é tênue e perigosa. Thomas Tuchel, o técnico alemão que assumiu o desafio, montou um time que funciona como um motor V8... mas com apenas dois pistões funcionando. O resto? Sucata. E o pior: ele mesmo deixou peças de reposição no banco de casa. Vamos à resenha.
O cenário atual: Tuchel e a falta de alternativas ofensivas
Thomas Tuchel chegou com fama de estrategista, de cara que monta esquemas defensivos sólidos. Mas ofensivamente, a Inglaterra virou um show de um homem só, com participação especial de outro. Os números não mentem: dos oito gols da Inglaterra neste Mundial, sete saíram dos pés (ou da cabeça) de Harry Kane e Jude Bellingham. O único que "fugiu à regra" foi Marcus Rashford, na estreia contra a Croácia. Vale lembrar que a França lidera ranking das seleções mais valiosas da Copa do Mundo de 2026; Brasil aparece em 2º, e justamente por ter um ataque mais equilibrado que a Inglaterra.
Enquanto França tem Mbappé, mas também Griezmann, Dembélé e um Tchouaméni que decide de longe; enquanto o Brasil tem Vini Jr, mas também Richarlison, Raphinha e um meio-campo que chega ao ataque; a Inglaterra tem Kane, Bellingham... e uma fila de jogadores que parecem perdidos em campo. Contra Gana, o placar foi 0 a 0. Coincidência? Não. Quando a dupla não resolve, o time não resolve.
A declaração de Tuchel após o jogo contra a RD Congo é sintomática: "Preciso lidar com as situações à medida que elas surgem. A partida ficou bem difícil porque eles marcaram um gol logo no início, mas devo dizer que, após o primeiro intervalo para hidratação, tivemos três, quatro, cinco grandes chances e acho que um pênalti a nosso favor", destacou Tuchel. Ele admite que o time "lidou com as situações", mas não diz que criou um plano B. É a velha história de confiar no brilho individual para apagar o incêndio tático.
Harry Kane: goleador nato, mas solitário
Harry Kane é, sem dúvida, um dos maiores centroavantes da história. Cinco gols em quatro jogos na Copa do Mundo. Números de respeito. Mas ele está solitário como um farol no meio do oceano. A defesa adversária sabe que, se anular Kane, anula metade do ataque inglês. E o pior: não há um segundo atacante para aliviar a pressão.
Veja o jogo contra a RD Congo: a Inglaterra sofreu para furar o bloqueio. Kane marcou, sim, mas de pênalti. E antes disso? Lançamentos, cruzamentos e mais lançamentos para ele. Sem variação. Sem um jogador que faça o movimento de tabela, que arraste marcadores, que apareça de surpresa. A dependência é tanta que, nos momentos de aperto, a bola vai para Kane e a torcida prende a respiração. Se ele está bem, o time vai. Se ele tem um dia ruim? O ataque para.
Exemplos de jogos em que Kane foi bem marcado e a Inglaterra não criou chances claras são a regra, não a exceção. O empate sem gols contra Gana é o retrato perfeito: Kane anulado, time perdido. Sem criatividade, sem profundidade, sem gols.
Jude Bellingham: o motor criativo que não pode parar
Se Kane é a ponta de lança, Jude Bellingham é o motor que faz o time andar. Ele é o principal criador de jogadas, o cara que carrega a bola, que finaliza de média distância, que dá o passe decisivo. Mas ele é humano. E humano cansa.
Bellingham é o único meio-campista ofensivo consistente da Inglaterra. Quando ele não está em um dia inspirado, o meio-campo inglês vira um deserto de criatividade. Compare com outras seleções: a Croácia tem Modric, mas também Kovacic e Brozovic; a França tem Griezmann, mas também Rabiot e Tchouaméni. A Inglaterra tem Bellingham... e só.
O risco de sobrecarga física e mental é real. Em um torneio curto como a Copa, onde jogos decisivos se acumulam, Bellingham pode simplesmente apagar. E aí, o que a Inglaterra faz? A resposta, até agora, é nada. É esperar que ele se recupere magicamente. Como aponta o TV Copa, times que dependem de um único criador de jogadas costumam sofrer nas fases eliminatórias.
Onde estão Palmer e Foden? O banco de reservas subutilizado
Aí entra a parte mais irritante dessa história. Thomas Tuchel deixou Cole Palmer e Phil Foden fora da lista final da Copa do Mundo. Sim, o mesmo Foden que é um dos jogadores mais talentosos do Manchester City. O mesmo Palmer que brilha no Chelsea. Fora. Não convocados.
E não adianta dizer que "eles não rendem na seleção". Isso é verdade para Foden, que nunca conseguiu replicar o futebol do City com a camisa inglesa. Mas aí a pergunta é: por quê? Será que é falta de confiança do técnico? Será que o esquema tático não se encaixa? Ou será que Tuchel simplesmente não sabe usar peças que não se encaixam no seu "sistema"?
E os que estão no elenco? Rashford, Madueke, Saka, Gordon, Rogers. Todos testados, todos sem resultado. A diferença de desempenho entre o que eles fazem nos clubes e na seleção é gritante. Rashford, que já foi decisivo no Manchester United, parece um fantasma. Saka, que é um dos melhores pontas do mundo no Arsenal, oscila. O problema não é só dos jogadores; é do técnico que não consegue extrair o melhor deles.
Os riscos de não ter um plano B: como a dependência pode custar o título
A história do futebol está cheia de exemplos de seleções que fracassaram por excesso de dependência de um ou dois jogadores. Portugal de Cristiano Ronaldo em 2014, que caiu na fase de grupos. A Argentina pré-Messi, que vivia de lampejos do craque e não conseguia títulos. A Inglaterra de Tuchel está trilhando o mesmo caminho.
E os adversários sabem disso. O México, próximo adversário nas oitavas de final, no Estádio Azteca, em 5 de dezembro, vai estudar a fita. Marcação dupla em Bellingham para cortar a criação. Linha baixa e dois zagueiros colados em Kane para anular a finalização. Pressão alta sobre a saída de bola para forçar o erro. Se a Inglaterra não tiver um plano B, vai sofrer. As oitavas de final da Copa do Mundo 2026: veja os confrontos e análise tática mostram que times bem organizados defensivamente podem neutralizar estrelas.
E se Kane ou Bellingham se lesionarem? O que a Inglaterra faz? O ataque simplesmente morre. Não há um jogador que possa substituir a dupla. É um risco enorme para um time que se diz candidato ao título. O Equador precisa vencer Curaçao: análise de uma obrigação para seguir na Copa do Mundo 2026 mostra como times com elenco limitado sofrem quando suas peças-chave são anuladas.
Possíveis soluções: como Tuchel pode reduzir a dependência
Não é tarde para mudar. Mas Tuchel precisa agir rápido. Algumas sugestões:
- Mudar a formação: Um 4-3-3 com dois pontas agressivos (Rashford e Saka, por exemplo) e um meio-campo mais criativo pode dar mais opções.
- Dar mais minutos a outros atacantes: Aliviar a pressão em Kane, permitindo que ele atue mais como referência e menos como única esperança.
- Envolver os laterais: Laterais ofensivos precisam ser mais acionados na criação de jogadas, não apenas como "esteiras" que sobem e descem sem critério.
- Treinar jogadas ensaiadas: Depender de lampejos individuais é suicídio. A Inglaterra precisa de variações ofensivas, de jogadas ensaiadas de escanteio, de faltas, de movimentações ensaiadas.
Se Tuchel não fizer isso, a Inglaterra pode até passar pelo México, mas vai cair nas quartas ou na semi. E aí, a culpa não será dos jogadores, mas do técnico que não soube diversificar o ataque.
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Perguntas frequentes
Por que a Inglaterra depende tanto de Kane e Bellingham? Porque Thomas Tuchel não conseguiu criar um sistema ofensivo que envolva outros jogadores. A falta de convocação de nomes como Palmer e Foden, e a incapacidade de extrair o melhor de Rashford, Saka e outros, criou um abismo entre a dupla e o resto do time.
Kane e Bellingham são os únicos jogadores decisivos da Inglaterra na Copa? Sim, com base nos números. Sete dos oito gols da Inglaterra vieram da dupla. Rashford marcou o único gol que não foi de Kane ou Bellingham. Fora isso, ninguém mais apareceu para decidir.
O que Tuchel pode fazer para reduzir a dependência de Kane e Bellingham? Mudar a formação para um 4-3-3, dar mais minutos a outros atacantes, envolver os laterais na criação e treinar jogadas ensaiadas. O essencial é criar um plano B que não dependa exclusivamente do brilho individual.
A falta de um plano B pode custar o título à Inglaterra? Sim. Exemplos históricos mostram que seleções excessivamente dependentes de um ou dois jogadores tendem a fracassar em momentos decisivos. Se Kane ou Bellingham forem anulados ou se lesionarem, a Inglaterra fica sem alternativas.
Por que Foden e Palmer não rendem na seleção como nos clubes? Pode ser uma combinação de fatores: esquema tático que não se adapta a eles, falta de confiança do técnico, pressão da camisa da seleção ou simplesmente má gestão de elenco. O fato é que Tuchel não conseguiu extrair o melhor deles, e optou por deixá-los fora da Copa.