A bola já rolava enquanto o mundo ainda decidia a Copa
Deixa eu colocar a cena na mesa, com o chopp ainda gelado: na quinta, dia 16 de julho, Botafogo e Santos entraram em campo pela 19ª rodada do Brasileirão. No mesmo horário, Vitória e Vasco faziam o mesmo. Logo depois, Mirassol e Grêmio. Tudo isso três dias antes de a final da Copa do Mundo ser jogada, no dia 19. Ou seja: o campeonato brasileiro voltou a rolar com o Mundial ainda em andamento, com jogador brasileiro ainda envolvido lá fora e com metade do país de olho no que acontecia do outro lado do Atlântico.
Precisava? Sinceramente, não.
Não é frescura de cronista que gosta de reclamar. É uma pergunta honesta sobre para quem esse calendário é feito. Porque, olhando de perto, essa retomada tem cara de tudo, menos de respeito pelo produto que a CBF diz vender.
A rodada que virou picadinho
Repare no detalhe que quase ninguém comentou no meio da euforia da Copa: a 19ª rodada não foi disputada num fim de semana, como manda a tradição e o bom senso. Ela foi fatiada, esticada como chiclete de 16 a 23 de julho. Começou numa quinta, com dois jogos simultâneos abrindo os trabalhos, e só foi terminar oito dias depois — hoje, quinta-feira, com Corinthians x Remo e Coritiba x Palmeiras fechando a conta.
Uma rodada só. Oito dias. Dez jogos espalhados como quem joga carta na mesa sem ordem nenhuma.
A justificativa oficial tem lógica, é preciso reconhecer: Santos, Vasco, Bragantino e Grêmio têm playoff de Sul-Americana logo na semana seguinte, e a CBF antecipou parte dos jogos dessas equipes para não sobrecarregar ninguém. Beleza. Mas o resultado prático é que o torcedor que quis acompanhar o próprio time no meio da semana teve que fazer malabarismo entre o trabalho, a final da Copa e um jogo de quinta às 19h30. E o torcedor neutro, aquele que liga a TV no domingo procurando futebol, simplesmente não encontrou a rodada onde ela sempre esteve.
Quando você precisa de um calendário e uma planilha para saber quando seu time joga, alguma coisa está errada no produto.
Voltar com o elenco pela metade
Tem outro ponto que arde ainda mais. Os clubes voltaram a jogar com desfalques de quem ainda estava na Copa. Não dá para escalar um time inteiro quando parte dos titulares está do outro lado do mundo defendendo a seleção. Então o que os treinadores fizeram? Reviram escalação, improvisaram, colocaram quem estava à mão.
Ou seja: depois de quase um mês e meio de bola parada, o Campeonato Brasileiro não voltou com o melhor que ele tem. Voltou com o que sobrou. É como reabrir o restaurante badalado, colocar o cardápio inteiro no cardápio e avisar, na hora do pedido, que metade dos pratos está em falta. Você paga o couvert igual.
E aqui mora a minha implicância maior. A gente passou a Copa inteira ouvindo que o futebol brasileiro precisa se valorizar, que precisa parar de ser celeiro barato de talento, que precisa vender o espetáculo lá fora. Aí, na primeira oportunidade de mostrar respeito pelo próprio espetáculo, a CBF trata a rodada de volta como tapa-buraco de calendário. Não combina.
O outro lado da mesa
Agora, para ser justo — e mesa de bar boa é aquela em que alguém discorda com argumento —, existe uma defesa razoável para a pressa.
O calendário do futebol brasileiro é, de fato, um monstro. É estadual, é Copa do Brasil, é Libertadores, é Sul-Americana, é Brasileirão, e agora, com o Mundial de Clubes inflado da FIFA ocupando o meio do ano, sobrou ainda menos espaço. Quando você tem 38 rodadas para encaixar num ano que já vem picotado por torneio de seleção, alguém precisa apertar em algum lugar. A CBF apertou aqui, antecipando a volta para terminar o Brasileirão mais cedo e abrir folga no fim da temporada, justamente para os clubes que ainda vão brigar por vaga em competição internacional lá na frente.
Sob essa ótica, não é desleixo. É escolha consciente de um cobertor curto: descobre a cabeça para tapar o pé.
E aqui está o ponto que me faz baixar o tom, mesmo sem engolir o argumento inteiro: o verdadeiro vilão talvez nem seja a CBF. É o modelo. É um sistema que empilha competição sobre competição, que expandiu Copa do Mundo, que inventou Mundial de Clubes gigante, que trata a agenda do jogador como se corpo humano fosse recurso infinito. A CBF, nessa história, é mais gerente de estoque desesperado do que arquiteto do caos. Ela administra a bagunça que recebe pronta de cima.
Só que administrar mal a bagunça também é responsabilidade. E fatiar uma rodada em oito dias, trazendo o campeonato de volta antes da final da Copa, é administrar mal.
Quem paga a conta é sempre o mesmo
No fim das contas, essa história toda tem uma vítima recorrente, e não é o dirigente. É o torcedor e é o jogador.
O torcedor porque perdeu a referência — a rodada de quem tem clube no coração deixou de ser um evento e virou uma sequência confusa de jogos soltos, competindo por atenção com o maior espetáculo do planeta. O jogador porque voltou de uma pausa curta, sem pré-temporada de verdade, muitas vezes com companheiros ainda pendurados na Copa, para entrar num campeonato que exige o corpo no ponto máximo. É pedir performance de elite com preparação de intervalo de banheiro.
E o mais irônico: tudo isso em nome de "valorizar o calendário". Valorizar para quem? Para o clube que fecha planilha, talvez. Para quem senta na arquibancada ou no sofá, a sensação é a de que o futebol brasileiro está sempre com pressa de terminar uma coisa para começar outra, sem nunca deixar ninguém respirar e curtir o que está na frente.
O Brasileirão é bom demais para ser tratado como fila de espera entre torneios maiores. A 19ª rodada mereceu um fim de semana, um palco só para ela, um respiro depois da Copa. Em vez disso, ganhou um retorno atropelado, no susto, com o elenco pela metade e a atenção do país dividida.
Voltou antes da final. Voltou fatiado. Voltou pela metade. E ainda querem que a gente aplauda a "eficiência do calendário". Eu, da minha cadeira aqui na mesa, prefiro perguntar de novo, sem pressa nenhuma: precisava?