O tamanho do desafio: por que a virada é pouco provável
Vamos ser honestos: ninguém aqui precisa bancar o maluco. O Santos perdeu por 3 a 0 no jogo de ida, no Nubank Parque, e a matemática é cruel. Precisa vencer por quatro gols de diferença para avançar direto, ou por três para levar a decisão aos pênaltis. Isso, na prática, significa golear um dos times mais consistentes do futebol brasileiro, dono de uma defesa sólida e de um ataque que resolve jogos em um lampejo. A busca pela virada santista sobre o Palmeiras na Copa do Brasil é um dos maiores testes da história recente do clube.
O histórico recente não ajuda. No atual regulamento da Copa do Brasil, não há registro de um time brasileiro que tenha revertido uma desvantagem de três gols em fases eliminatórias. E o Palmeiras, convenhamos, não é o tipo de adversário que entrega o ouro assim. Com um elenco caro, entrosado e acostumado a decidir, a missão santista beira o improvável.
Some-se a isso o desgaste físico e emocional de uma temporada sofrida. O Santos vive uma montanha-russa: briga para não se afundar no Brasileirão, tenta resgatar um futebol digno e ainda carrega o peso de uma torcida que não aceita mais migalhas. O time de Cuca, que oscila entre lampejos e apagões, teria que ser perfeito por 90 minutos. Perfeito. Contra um adversário que não perdoa. E isso tudo em um momento em que o calendário aperta, com o Brasileirão voltando antes mesmo da poeira baixar.
Mas é exatamente por isso que este texto existe. Porque futebol, felizmente, não se decide em planilha. E porque há coisas maiores em jogo do que uma vaga nas semifinais.
A obrigação de tentar: o que está em jogo além do resultado
A postura do Santos no jogo de ida foi, para usar uma palavra que o jornalista Rafael Belmont cravou, vergonhosa. Time pequeno. Aquele tipo de atuação que envergonha quem veste a camisa e quem paga o ingresso. Erros infantis, falta de atitude, nenhuma reação. Foi um 3 a 0 que poderia ter sido pior, e não por mérito do Palmeiras, mas por incompetência santista.
Contra o Corinthians, no domingo (30), na Neo Química Arena, o Santos mostrou que tem sangue. Venceu por 1 a 0, com gol de Christian Oliva após cobrança de falta de Neymar, e subiu para o 14º lugar no Brasileirão, com 29 pontos em 24 jogos (7 vitórias, 8 empates e 9 derrotas). Neymar e Gabigol, que não atuaram juntos no jogo de ida, deram sinais de que podem ser a chave para uma noite histórica.
Gabigol, aliás, foi cirúrgico. Disse que a classificação é complicada, que o Palmeiras tem orçamento muito maior e é um dos times a serem batidos no Brasil, mas que o Santos está em casa, na Vila, e precisa desfrutar do jogo e buscar a vitória. Na minha opinião, Gabi está certíssimo. E isso me lembra um jogo de 2018.
Na Libertadores daquele ano, o Santos foi eliminado pelo Independiente, mas o que ficou na memória não foi o placar agregado. Foi a entrega. A raça. O time correu, lutou, se doou até o fim, mesmo sabendo que a classificação era improvável. A torcida saiu de cabeça erguida, não pelo resultado, mas pela atitude. Futebol é isso: às vezes, o resultado é consequência, e o que importa é a alma que você coloca em campo.
O Santos tem a obrigação de tentar a virada contra o Palmeiras, mesmo com 3 a 0 no placar, porque precisa resgatar essa identidade. Uma derrota lutando, com raça e criatividade, vale mais do que uma vitória burocrática em outra rodada do Brasileirão. E, quem sabe, uma noite inspirada pode devolver a confiança que o elenco e a torcida tanto precisam.
O que o Santos precisa fazer em campo para tentar a virada
Se a missão é improvável, a estratégia precisa ser ousada. Cuca tem que armar um time que vá para cima desde o primeiro minuto, sem medo de se expor. A receita, pelo menos no papel, é clara.
Pressão desde o início. O Santos precisa sufocar o Palmeiras na saída de bola, com marcação alta e intensidade. O time do Palmeiras não está acostumado a ser pressionado em seu próprio campo, e erros de saída podem virar gols preciosos.
Aproveitar as bolas paradas e os cruzamentos na área. Neymar, se estiver em campo, cobra falta com maestria. Gabigol, se estiver à disposição, é especialista em aparecer nas costas da zaga. A presença dos dois, que não começaram o jogo de ida, muda completamente o panorama ofensivo.
Evitar erros individuais. Os gols que o Palmeiras marcou no jogo de ida foram, em grande parte, presentes da defesa santista. Contra um adversário que sabe matar, qualquer vacilo é fatal. A zaga precisa estar concentrada do início ao fim.
Manter a paciência. O primeiro gol pode sair cedo ou pode demorar. Se sair, a Vila vai explodir e o Palmeiras pode sentir o peso do jogo. Se não sair, o Santos não pode se desesperar e se expor de forma infantil. Cada minuto sem gol é um minuto de pressão que aumenta.
Contar com a torcida. A Vila Belmiro, quando empurra, é um caldeirão. O 12º jogador pode ser o diferencial em uma noite em que o time precisa de algo a mais. A torcida santista, que já viveu noites mágicas, sabe o que fazer. O time precisa apenas dar o primeiro passo.
O que esperar do Palmeiras e como o Santos pode se beneficiar
O Palmeiras, óbvio, não vai se expor. A tendência é que entre com uma postura defensiva, administrando o resultado e esperando o momento certo para matar o jogo no contra-ataque. É a estratégia clássica de quem tem vantagem. E é uma estratégia que pode dar errado, se o Santos fizer o dever de casa.
Se o Santos abrir o placar cedo, o Palmeiras vai sentir. A ansiedade de quem está protegendo um resultado pode virar pânico. E time em pânico comete erros. A torcida palmeirense, acostumada a vencer, pode ficar impaciente se o Santos marcar dois gols, criando um ambiente de tensão que favorece o time da casa.
O Santos precisa acreditar que é possível. Não no sentido ingênuo de achar que a virada será fácil, mas no sentido de que, se o futebol é imprevisível, por que não tentar? O Palmeiras tem qualidade, mas não é imbatível. Já perdeu jogos importantes neste ano. Já sentiu o gosto amargo da derrota.
E, no fundo, o que a torcida santista quer não é uma classificação improvável. É ver o time lutando. É ver Neymar e Gabigol em campo, juntos, tentando. É ver a Vila Belmiro pulsando, mesmo que o resultado não venha. Porque futebol, no fim das contas, é sobre emoção. E emoção, o Santos não pode abrir mão.
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