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Seis gols em Cusco e decisão a 2.850 metros: a altitude voltou a cobrar a conta

Seis gols em Cusco e decisão a 2.850 metros: a altitude voltou a cobrar a conta

Existe uma frase pronta que aparece toda vez que um time brasileiro desce de um estádio andino com a cabeça baixa: "a altitude pesou". A frase é verdadeira e inútil ao mesmo tempo. Verdadeira porque pesou mesmo. Inútil porque trata como fatalidade climática algo que é, antes de tudo, decisão de planejamento.

Na quinta-feira, 13, o Botafogo perdeu por 6 a 1 para o Cienciano no Estádio Inca Garcilaso de la Vega, em Cusco, a cerca de 3,3 mil metros de altitude, pelo jogo de ida das oitavas de final da Copa Sul-Americana. Matías Succar marcou três vezes. Matheus Martins fez o gol brasileiro, que hoje serve mais de consolo estatístico do que de esperança.

A conta para a volta, na próxima quinta, no Nilton Santos, é quase cômica de tão dura: o Botafogo precisa vencer por seis gols de diferença para avançar, ou por cinco para levar a decisão aos pênaltis.

A rodada inteira contou a mesma história

O caso do Botafogo foi o mais escandaloso, mas não foi isolado. Na mesma noite, o Mirassol empatou em 1 a 1 com a LDU no Estádio José Maria de Campos Maia, em casa. Eduardo abriu o placar aos 14 minutos do primeiro tempo, Michael Estrada igualou aos 36 do segundo.

O detalhe que muda tudo: a volta será em Quito, no dia 20, a 2.850 metros. E novo empate leva a decisão aos pênaltis. O Mirassol vinha com aproveitamento de 100% jogando no Maião nesta edição da Libertadores, três jogos e três vitórias. Perdeu justamente o jogo em que a vantagem valia mais.

Na mesma semana, Cruzeiro e Flamengo empataram, o Palmeiras cedeu gol no fim contra adversário paraguaio, e o Corinthians segurou o empate fora de casa contra o Rosario Central. Os jogos de ida terminaram sem que nenhum brasileiro construísse vantagem confortável.

O que a altitude faz com o jogo

A parte física é conhecida. Em Cusco, a pressão atmosférica fica em torno de dois terços da que existe no nível do mar. Menos pressão significa menos oxigênio disponível a cada respiração, e o corpo compensa acelerando a respiração e o coração. O atleta cansa mais rápido, recupera mais devagar entre os sprints e sente o efeito principalmente nos últimos vinte minutos de cada tempo.

Há também a parte que os goleiros odeiam. O ar mais rarefeito oferece menos resistência à bola, que viaja mais rápido, faz curvas diferentes e morre menos. Chute de fora da área que no Rio seria defesa tranquila vira gol na cordilheira.

Junte os dois efeitos e você tem exatamente o roteiro do jogo em Cusco: pressão inicial suportável, erro crescente de posicionamento, marcação que chega tarde e placar que desanda em série.

Existem dois caminhos, e o Brasil não escolhe nenhum

A literatura do esporte de rendimento aponta duas estratégias razoáveis para jogar em altitude elevada. A primeira é chegar poucas horas antes da partida, jogando antes que os efeitos da má adaptação se instalem. A segunda é subir com antecedência de vários dias, às vezes semanas, para permitir a aclimatação real.

O que os clubes brasileiros fazem, na prática, é uma terceira coisa: chegam com um ou dois dias de antecedência, tempo suficiente para o corpo estranhar e insuficiente para se adaptar. É o pior dos mundos, e é o mundo que o calendário impõe.

Porque o problema de fundo não é a montanha. É a agenda. Um clube que joga Brasileirão, Copa do Brasil e competição continental em janelas coladas não tem como reservar dez dias de preparação em Cusco. Ele embarca no dia seguinte a um jogo em São Paulo, joga a 3,3 mil metros e volta correndo para a rodada de domingo.

Por que a Conmebol não muda

A discussão sobre limitar jogos em altitude não é nova no continente. Houve tentativa de restrição no fim da década passada e o assunto virou disputa política entre federações, com Bolívia, Peru e Equador defendendo o direito de jogar onde vivem. O argumento deles é difícil de rebater: a altitude é a condição normal da casa deles, não um artifício.

Do lado brasileiro, a resposta madura não é reclamar do relevo alheio. É tratar o jogo em altitude como um jogo especial, com preparação específica, que envolve escalação pensada para outro ritmo, substituições antecipadas e um plano tático que aceite ficar sem a bola em vez de tentar pressionar alto por noventa minutos.

O padrão que ninguém quer admitir

Vale olhar a rodada inteira sem paixão de torcida. Quatro clubes brasileiros jogaram a ida das oitavas continentais nesta semana e nenhum construiu vantagem. Três empataram por 1 a 1 e um perdeu por cinco gols de diferença.

Uma noite ruim é acaso. Uma rodada inteira sem vitória, com dois jogos em altitude e dois fora de casa, é padrão. E padrão se combate com preparação, não com discurso de superação no vestiário.

O detalhe cruel é que a maioria desses times joga em casa na volta e vai precisar do resultado que não conseguiu construir quando tinha margem para errar. Vantagem desperdiçada na ida cobra juros na volta.

O que ainda está em jogo

O Botafogo, realisticamente, está fora. Seis gols de diferença em jogo único é o tipo de virada que aparece uma vez por década.

O Mirassol tem chance concreta, e é aí que a lição fica interessante. O time paulista chega a Quito com o placar aberto e a possibilidade dos pênaltis. Um plano de jogo que aceite sofrer, que use as substituições cedo e que trate os últimos vinte minutos como sobrevivência pode levá-lo às quartas de final na primeira campanha continental de mata-mata da sua história.

Se der certo, ninguém vai dizer que a altitude não pesou. Vai pesar. A diferença é que dessa vez alguém terá contado com isso antes de embarcar.

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