Thomas Tuchel não teve papas na língua. Perguntado sobre a disputa de terceiro lugar contra a França, o técnico da Inglaterra disparou que nenhum jogador inglês e nenhum jogador francês quer estar naquele campo. "Ninguém queria estar amanhã neste jogo, queríamos estar em Nova York", admitiu, em referência ao MetLife Stadium, onde Espanha e Argentina decidem o título no domingo.
E aí, na frase seguinte, ele entregou o ouro sem perceber: "mas temos a chance de terminar com o melhor resultado dos últimos 60 anos."
Está tudo ali, no mesmo minuto de coletiva. O desprezo protocolar e a confissão de que o jogo importa. Neste sábado, às 18h de Brasília, no Hard Rock Stadium, em Miami, França e Inglaterra vão disputar a partida mais caluniada do calendário do futebol. E eu venho aqui defender o indefensável: é o jogo mais honesto que esta Copa vai produzir.
O réu confessa e se contradiz na mesma respiração
A acusação contra a decisão de terceiro lugar é sempre a mesma. Amistoso caro. Jogo de consolação. Ninguém lembra quem ganhou. O troféu não existe.
O problema é que quem faz a acusação costuma ser exatamente quem mais tem a ganhar. Tuchel disse que ninguém quer jogar — e no fôlego seguinte lembrou que a Inglaterra não termina uma Copa tão bem desde 1966. Os Três Leões foram quartos colocados em 1990 e quartos colocados de novo em 2018, quando perderam justamente a decisão de terceiro para a Bélgica por 2 a 0. Terminar em terceiro em Miami não é um bilhete de consolação: é a melhor colocação inglesa em quase seis décadas.
O técnico também avisou que vai mexer no time — "teremos mudanças, não sei quantas, mas teremos mudanças". Traduzindo: ele vai jogar. Time que não quer nada não recebe planejamento.
A história não é gentil com quem trata isso como amistoso
Quem chama a disputa de terceiro de partida morta não olhou o placar dela.
Peguei as oito últimas decisões de bronze, de 1994 até 2022, e o resultado é constrangedor para os críticos:
- 1994 — Suécia 4 x 0 Bulgária
- 1998 — Croácia 2 x 1 Holanda
- 2002 — Turquia 3 x 2 Coreia do Sul
- 2006 — Alemanha 3 x 1 Portugal
- 2010 — Alemanha 3 x 2 Uruguai
- 2014 — Holanda 3 x 0 Brasil
- 2018 — Bélgica 2 x 0 Inglaterra
- 2022 — Croácia 2 x 1 Marrocos
São 29 gols em oito jogos. Média de 3,6 por partida. Nenhum empate. Nenhum 0 a 0. Nenhuma daquelas cerimônias de 90 minutos em que dois times se olham esperando os pênaltis.
Compare com a média de gols de qualquer final de Copa do mesmo período e a conversa muda de tom. Decisão de título é jogo de medo. Decisão de terceiro lugar é jogo sem medo — que é uma coisa bem diferente de jogo sem vontade.
O último jogo em que ninguém calcula nada
Aqui está o argumento tático que quase ninguém faz.
Numa Copa inteira, todo jogo é gerenciado. Time que lidera o grupo poupa titular pendurado. Técnico segura substituição pensando na prorrogação. Zagueiro não entra dividido no minuto 80 porque tem cartão. Meia recua a bola porque o empate classifica. A competição inteira é um exercício de administração de risco.
Na disputa de terceiro lugar, esse cálculo simplesmente deixa de existir. Não há próximo jogo. Não há cartão que suspenda ninguém. Não há resultado a proteger, porque um empate não serve para nada — e é exatamente por isso que esses jogos viram 4 a 0 e 3 a 2. Os dois times atacam porque atacar é a única coisa que faz sentido.
É o único jogo de uma Copa em que o futebol acontece sem contabilidade. Chamar isso de irrelevante é uma escolha estranha para quem passa o mês reclamando que o futebol moderno é cauteloso demais.
Deschamps se despede num jogo "que não vale nada"
Tem outra coisa em Miami que a narrativa preguiçosa ignora.
Didier Deschamps anunciou ainda em janeiro que deixaria o comando da seleção francesa ao fim desta Copa. Ele está no cargo desde 2012. Ganhou o Mundial de 2018, levou a França à final de 2022 e agora encerra o ciclo mais longo e mais vencedor de um técnico francês na era moderna.
A última partida dele no comando da França é esta. Não a semifinal perdida para a Espanha por 2 a 0, não uma despedida com discurso em Paris. É o jogo de sábado, em Miami, contra a Inglaterra, num estádio que a maior parte do público vai tratar como aquecimento para o domingo.
Catorze anos de trabalho terminam num jogo que a imprensa combinou de fingir que não existe. Se isso não é motivo para um time entrar ligado, sinceramente não sei o que é. E do outro lado do campo estão Kylian Mbappé e Harry Kane, dois jogadores que não construíram carreira aceitando terminar em quarto lugar.
Onde os críticos têm razão
Seria desonesto defender a disputa de terceiro sem admitir o óbvio.
O jogo está mal encaixado no calendário. Cai poucos dias depois de duas semifinais desgastantes, com elencos emocionalmente destruídos e fisicamente no limite de um torneio que, com 48 seleções, ficou mais longo do que qualquer Copa anterior. Pedir intensidade de atletas que perderam uma semifinal na quarta e precisam reagir no sábado é pedir bastante.
A Inglaterra chega especialmente ferida: perdeu para a Argentina por 2 a 1 depois de sair na frente com gol de Anthony Gordon, viu Enzo Fernández empatar no fim e Lautaro Martínez virar nos acréscimos. Tuchel assumiu a conta publicamente — "a responsabilidade é minha", disse — e ainda ouviu críticas de Wayne Rooney pela mudança para uma linha de cinco. Não é o estado de espírito ideal para entrar em campo dois dias depois.
Tudo isso é verdade. Nada disso torna o jogo desprezível. Torna o jogo difícil, que é outra coisa.
A tese
A disputa de terceiro lugar é o único jogo da Copa que não pode ser vendido como narrativa. Não tem taça de ouro, não tem confete, não tem a foto que vai para o livro. Sobra o que geralmente fica escondido debaixo da narrativa: dois times cansados decidindo, na frente de todo mundo, se ainda querem jogar futebol quando ninguém prometeu nada em troca.
A Turquia levou esse jogo a sério em 2002 e ficou com a melhor campanha da sua história. A Croácia levou a sério em 1998 e em 2022 e tem dois bronzes numa nação de menos de quatro milhões de habitantes. A Bélgica levou a sério em 2018 e assinou o melhor resultado que já teve em Copas.
Em todos esses casos, o time que "não queria jogar" saiu com algo que carrega até hoje. Neste sábado, um deles vai descobrir isso de novo. O outro vai passar quatro anos explicando por que não quis.
Eu vou assistir. E aposto que Tuchel também não vai tirar o olho do campo.