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O pior gramado desde a inauguração da Arena — e o argumento que Diniz não usou

O pior gramado desde a inauguração da Arena — e o argumento que Diniz não usou

Tem uma cena que resume a quinta-feira do Corinthians melhor do que o 0 a 0 com o Athletico-PR: Yuri Alberto saindo de maca, chorando, depois de sentir uma fisgada na posterior da coxa direita. Antes dele, Zakaria Labyad já tinha torcido o joelho esquerdo e saído no intervalo. Dois jogadores, duas macas, um empate sem gols e um técnico irritado na entrevista.

Fernando Diniz encontrou o culpado rápido.

"Não sou especialista em campo, mas esse é pior gramado desde que a Arena foi inaugurada. Eles deviam ter avisado que o campo voltaria dessa forma. A diretoria está cobrando, estamos tentando fazer o melhor. De quinta-feira para cá, o campo não está melhor."

Ele tem razão. E, ainda assim, esse é o menor dos problemas da noite.

Primeiro, o mérito da reclamação

O gramado da Neo Química Arena sempre foi um ativo do Corinthians, não um passivo. Diniz disse isso com todas as letras: "sempre joguei aqui e o campo sempre foi uma arma". Um campo rápido e regular favorece quem joga com bola no chão, e o Corinthians dos últimos anos construiu identidade em cima disso.

Quando esse campo vira um tapete irregular, o time perde a vantagem de jogar em casa duas vezes: joga pior e machuca mais. Diniz atribuiu a lesão de Labyad diretamente ao estado do gramado — "a do Labyad muito provavelmente tem a ver com o campo, infelizmente". Torção de joelho em piso irregular é o tipo de lesão que qualquer preparador físico associa ao terreno, e nesse ponto não há o que discutir.

O que também não dá para discutir é a legitimidade da bronca pública. Um clube que cobra internamente e não vê resultado tem poucas ferramentas além da entrevista coletiva. Diniz usou a que tinha.

Agora, o detalhe que ele mesmo entregou

O problema é que a explicação do gramado não cobre a lesão mais grave da noite.

Sobre Yuri Alberto, Diniz disse outra coisa — e essa frase é a mais interessante da coletiva inteira:

"Pelo controle de carga, um jogador que não iria machucar de forma alguma era o Yuri, mas sentiu uma lesão muscular. Tem outros fatores que fazem um jogador lesionar."

Ou seja: o departamento de fisiologia do clube tinha o camisa 9 como um dos atletas com menos probabilidade de sofrer lesão. Ele se lesionou mesmo assim, e não numa dividida nem numa mudança de direção no piso ruim — numa lesão muscular, o tipo que costuma falar de acúmulo, não de terreno.

Repare no encadeamento. Diniz escalou time alternativo justamente porque não podia mandar os titulares. Ele explicou o motivo: "Se jogássemos com o mesmo time hoje, chegaríamos com o time muito desgastado para enfrentar o Inter". O Corinthians joga domingo a ida das oitavas de final da Copa do Brasil.

Então a sequência real é esta: o calendário obrigou a poupar, poupar obrigou a escalar quem tinha menos ritmo, e quem tinha menos ritmo se machucou em campo ruim. O gramado é a última peça da fila, não a primeira.

Não é um problema do Corinthians

Se a história parasse na Neo Química Arena, seria uma crise doméstica. Não parou.

Na mesma rodada, o Fluminense confirmou duas lesões na zaga depois do 0 a 0 com o Bahia: Thiago Silva com lesão na parte posterior da coxa e Freytes com edema ósseo no tornozelo direito. Freytes sentiu no primeiro tempo e foi substituído aos 42 minutos — por Thiago Silva, que também se machucou e saiu aos 17 do segundo tempo. Dois zagueiros perdidos em um jogo só, na véspera das oitavas de final da Copa do Brasil contra o Vasco.

Ninguém culpou o gramado do Fluminense. E, de novo, a estrutura é idêntica: jogo de meio de semana, elenco no limite, mata-mata logo em seguida, dois atletas para fora.

Quando o mesmo padrão aparece em clubes diferentes, com gramados diferentes, em estados diferentes, na mesma semana, a variável comum não é o campo.

O calendário é o assunto que ninguém quer levantar sozinho

Aqui está a razão pela qual a bronca do Diniz parou onde parou. Reclamar do gramado é seguro: o alvo é interno, o problema é técnico e a solução é operacional. Reclamar do calendário é caro. Significa peitar a estrutura que paga as cotas, e nenhum treinador quer ser o primeiro a fazer isso sozinho no meio da temporada.

Então cada um reclama do que dá. Um fala do campo, outro fala do gramado sintético, um terceiro fala da viagem, outro fala do horário. São todos sintomas verdadeiros do mesmo diagnóstico que ninguém assina: um elenco de futebol brasileiro joga times diferentes toda semana porque não existe janela para recuperar ninguém.

O dado que Diniz entregou de graça — o jogador com menor probabilidade de lesão se lesionou — é a evidência mais eloquente disso. Controle de carga é uma ferramenta boa. Ela só não funciona quando a carga é inegociável.

O que isso custa no domingo

O Corinthians provavelmente não terá Yuri Alberto nem Labyad contra o Internacional. Diniz já falou como quem sabe: "É um desfalque que preocupa, vamos tentar achar a melhor opção para domingo".

E o resumo cruel da noite é este: o técnico poupou titulares para chegar inteiro ao mata-mata, e saiu do jogo com dois desfalques a mais do que tinha antes. A rotação, que existe exatamente para evitar isso, produziu o resultado que deveria evitar.

Enquanto isso, a torcida levou faixas à Neo Química Arena para protestar contra a diretoria. Não por causa do gramado.

Consertem o campo — e depois façam a pergunta difícil

Que o gramado da Arena precisa ser recuperado, precisa. É patrimônio esportivo, é vantagem competitiva e é segurança de trabalho para atletas dos dois times. A cobrança do treinador está certa e deveria ter sido feita antes.

Mas se a conclusão que o futebol brasileiro tirar desta semana for "o problema era a grama", a gente vai repetir a mesma coletiva em setembro, em outro estádio, com outro camisa 9 saindo de maca. E aí não vai ter placa de grama nova que resolva.

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