Na segunda-feira (10), no Rio, dirigentes de clubes das Séries A e B se reuniram com a CBF e aprovaram dez mudanças na arbitragem. Valem a partir da 23ª rodada do Brasileirão.
São regras vindas do IFAB, testadas na Copa do Mundo, com um objetivo declarado: acabar com a cera, deixar o jogo mais dinâmico e reduzir tempo perdido. Objetivo com o qual, aliás, é impossível discordar. Quem assiste futebol brasileiro há tempo suficiente sabe que a bola rola menos do que deveria e que o goleiro que abraça a bola aos 40 do segundo tempo é uma instituição nacional.
Então por que estou incomodado? Não com as regras. Com a data.
O campeonato vai terminar em regras diferentes das que começou
Um campeonato de pontos corridos existe porque todo mundo joga contra todo mundo, duas vezes, sob as mesmas condições. É essa simetria que faz o troféu significar alguma coisa.
A partir da 23ª rodada, essa simetria racha. O returno inteiro será disputado sob um conjunto de regras que não valia no turno. Um time que somou pontos com goleiro segurando bola em julho vai enfrentar em setembro um adversário que perde escanteio se fizer a mesma coisa.
Isso beneficia alguém? Beneficia. Beneficia quem tem elenco jovem e comissão técnica com tempo de treino para adaptar rotina. Prejudica quem tem elenco veterano, calendário sobrecarregado e disputa três frentes. E a diferença não vai aparecer em nenhuma súmula — vai aparecer na tabela.
O momento certo de importar regra do IFAB é entre temporadas. Todo mundo sabe disso. Fez-se assim mesmo.
Os oito segundos são a mudança de verdade
De todas as dez, essa é a que muda o futebol que a gente vê.
O goleiro passa a ter oito segundos com a bola nas mãos. Estourou, é escanteio para o adversário. Não é advertência, não é tiro livre indireto perdido no meio da área: é escanteio, com todo mundo subindo.
Some a isso os cinco segundos para o arremesso lateral e os cinco para o tiro de meta — ambos com perda de posse ou escanteio como punição — e você tem uma alteração real no ritmo. O tempo morto que sustentava a gestão de resultado no futebol brasileiro simplesmente encolheu.
Aqui eu aplaudo sem ressalva. É a regra que ataca o problema onde ele mora, e com uma punição pesada o bastante para ser respeitada. Cartão amarelo por cera nunca funcionou porque o árbitro dava um por jogo e o time aceitava o preço. Escanteio ninguém aceita.
Complementam o pacote o jogador substituído tendo que sair pelo ponto mais próximo em dez segundos, e o atendimento médico em campo custando um minuto fora ao atendido — inclusive um jogador de linha que socorra o goleiro.
E aí vem a contradição
No mesmo pacote anticera, entrou a regra que autoriza o VAR a revisar o segundo cartão amarelo que resulta em expulsão.
Alguém precisa explicar como isso convive com o resto. Todo lance de segundo amarelo passa a ser candidato a revisão. Cada revisão é uma parada de dois, três minutos, com jogador ajoelhado, torcida vaiando e o jogo congelado.
O pacote tira segundos do goleiro e devolve minutos ao monitor.
Entendo a intenção — segundo amarelo mal aplicado destrói um jogo e às vezes um campeonato. Mas é uma decisão que empurra a arbitragem ainda mais para o território subjetivo. Falta é diferente de impedimento: impedimento é linha, falta é interpretação. E o VAR nunca foi bom em interpretar; ele é bom em medir.
Aposto que os primeiros meses dessa regra vão render mais confusão do que justiça. Torço para estar errado.
O capitão como porta-voz único
Só o capitão poderá falar com o árbitro durante a partida.
No papel, ótimo. Fim do cerco de sete jogadores gritando, fim daquela cena constrangedora que qualquer campeonato europeu já baniu e que no Brasil virou paisagem.
Na prática, vai depender inteiramente de os árbitros terem coragem de aplicar. Se der amarelo em quem furar a fila nas duas primeiras rodadas, pega. Se relevar "porque o jogo estava pegado", morre em três semanas como morreram outras tentativas.
Regra não muda cultura. Aplicação de regra muda cultura.
A "lei Vini Jr."
Cartão vermelho para quem cobrir intencionalmente a boca ao discutir com adversário — para impedir a leitura labial de ofensas.
É a regra mais simbólica do pacote e a que mais fala sobre onde o futebol chegou. Você não precisa que ela exista se não houver o que esconder. O fato de precisarmos legislar sobre a boca tapada diz algo desconfortável sobre a mesa de bar em que esse esporte se transformou em certos momentos.
Dito isso: acho correta. Vermelho é pesado, e é para ser.
O que eu espero das próximas rodadas
Três coisas, na ordem:
Primeiro, caos. Duas ou três rodadas de contagem errada, reclamação, escanteio marcado por oito segundos que o banco jura que foram seis, e árbitro descobrindo na marra como se conta em campo.
Segundo, adaptação desigual. Alguns clubes vão chegar com o goleiro treinado e o roteiro de saída de bola ajustado. Outros vão perder pontos aprendendo. Isso é o campeonato distribuindo vantagem por preparação, o que até seria legítimo — se todos tivessem tido a mesma janela para se preparar. Não tiveram.
Terceiro, uma discussão inevitável em novembro. Quando algum time perder vaga na Libertadores por um lance envolvendo essas regras, e vier a coletiva dizendo que o campeonato mudou no meio, ninguém vai poder alegar surpresa.
As dez regras, no geral, tornam o futebol melhor. Eu as quero. Só queria que tivessem chegado em janeiro, com todo mundo na mesma linha de largada.
Uma décima primeira mudança — a revisão de escanteio marcado por engano que leva a gol ou pênalti — ficou para 2027. Essa esperou o tempo certo. Pena que só ela.