Resenha Esportiva
Esportes
Opinião

Três lances, três consultores na TV: o VAR virou programa de auditório

Três lances, três consultores na TV: o VAR virou programa de auditório

Em seis dias, o futebol brasileiro produziu três lances polêmicos e três aulas de arbitragem na televisão. As aulas foram boas. O problema é que elas existem.

Vamos aos fatos, na ordem em que aconteceram.

Três lances, três explicações, três estúdios

23 de julho, Botafogo x Vitória, Nilton Santos. Numa disputa dentro da área do Vitória, Matheus Martins cai reclamando de dor. O árbitro Jonathan Benkenstein Pinheiro, do Rio Grande do Sul, manda seguir. A VAR Daiane Muniz, de São Paulo, não recomenda revisão. O jogo estava 0 a 0 no momento do lance. No dia seguinte, o consultor de arbitragem Salvio Spinola vai à TV e explica: a decisão foi correta, o contato foi lance normal.

26 de julho, Palmeiras x Atlético-MG, 20ª rodada. Cruzamento de Piquerez pela esquerda, Ruan dá um carrinho e bloqueia a bola com o braço. Bruno Arleu marca pênalti. Depois da revisão no VAR, volta atrás. O jogo termina 0 a 0. Vai à TV o consultor PC Oliveira e explica: correto de novo — o braço estava em posição de apoio, não em extensão antinatural, e a regra da mão na bola cobre exatamente essa distinção.

26 de julho, Flamengo 1 x 1 São Paulo, Maracanã. No segundo tempo, Marcos Antônio toca a bola com o braço dentro da área numa disputa com Arrascaeta. Anderson Daronco manda seguir, e o VAR não recomenda revisão. No fim, um gol de Samuel Lino é anulado por impedimento semiautomático de Wallace Yan. Dessa vez quem foi ao microfone não foi consultor de TV, foi o diretor de futebol do Flamengo, José Boto: "É pênalti porque ele tira vantagem da posição do braço mesmo estando junto ao corpo", disse, apontando "clara intenção dele de desviar a bola com o braço". E encerrou com a frase que resume a semana: "O grande problema do Brasil é a falta de critério."

Boto tem razão. Só que não do jeito que ele quis dizer.

O problema não é o erro. É a ausência de padrão anunciado.

Erro de arbitragem sempre existiu e vai continuar existindo. Quem acha que o VAR ia zerar isso não entendeu para que serve o VAR — que nunca foi uma máquina de acertar, e sim um filtro para o erro escandaloso.

O que o torcedor brasileiro não consegue mais engolir é outra coisa: dois lances parecidos, duas decisões diferentes, e nenhuma explicação disponível no momento em que a decisão é tomada.

Repare no padrão das três polêmicas acima. Em todas, a informação sobre o critério chegou depois. Um dia depois. Numa mesa de TV. Pela boca de alguém que não estava no jogo, não decidiu nada e não responde por nada.

Isso não é transparência. É pós-produção.

O consultor de televisão não é o juiz — e não devia precisar existir

Não tenho nada contra PC Oliveira ou Salvio Spinola. São bons no que fazem e, na maioria das vezes, estão certos nas leituras. O incômodo é estrutural.

Quando a única forma de o público entender uma decisão da arbitragem é assistir a um programa esportivo no dia seguinte, a arbitragem terceirizou a própria comunicação. O resultado é que cada emissora forma seu tribunal, cada tribunal tem seu jurista, e os jurados de casa escolhem o que preferirem — normalmente, o que favorece o time deles.

E aí não há critério que sobreviva. Porque critério não é uma opinião especializada emitida depois. Critério é uma regra pública aplicada igual, na hora, para todo mundo — e verificável no momento em que é aplicada.

O que resolveria (e não é ficção científica)

Nada do que vem abaixo é invenção minha. É coisa que já roda em outros lugares e em outras competições.

Áudio do VAR liberado. Não depois, num programa. Ao vivo, ou na sequência imediata do lance. Se a conversa entre cabine e campo é técnica, que ela seja pública. Ninguém precisa gostar do resultado para entender o raciocínio.

Anúncio no estádio. O árbitro pega o microfone e explica a decisão para quem pagou ingresso. Já se faz em outros esportes e em outros torneios de futebol. Custa trinta segundos e desarma metade do teatro.

Consistência publicada. Se o carrinho do Ruan não é pênalti por causa do braço de apoio, então todo carrinho com braço de apoio não é pênalti — no Palmeiras, no Vitória e no time que está brigando contra o rebaixamento. E isso precisa estar escrito, com exemplos em vídeo, antes da rodada, não depois.

Nenhuma dessas medidas elimina erro. Todas eliminam a suspeita — que é o que realmente corrói o campeonato.

E o calendário não ajuda em nada

Tem um agravante que quase ninguém liga aos lances polêmicos, mas devia.

O Brasileirão voltou em 19 de julho, depois da parada da Copa do Mundo, e já está na 21ª rodada, que começa nesta quarta-feira, 29, com quatro jogos. Há quatro partidas ainda sem data definida: Botafogo x Grêmio, São Paulo x Santos, Atlético-MG x Red Bull Bragantino e Chapecoense x Vasco. O Palmeiras lidera com 44 pontos.

Um campeonato que joga quarta e quinta, com quatro jogos pendurados no calendário e equipes de arbitragem rodando em ritmo de linha de produção, é um campeonato que fabrica desgaste. Árbitro cansado erra mais. VAR cansado revisa pior. E a conta chega em forma de polêmica no dia seguinte — que gera mais um programa, mais um consultor, mais uma explicação tardia.

O ponto

A frase do Boto vai virar meme e vai ser usada como choro de dirigente que perdeu ponto em casa. Tudo bem, faz parte.

Mas debaixo do choro tem um diagnóstico correto: falta critério. E critério não se conquista contratando mais consultores para explicar decisões depois. Conquista-se publicando a régua antes e aplicando ela na frente de todo mundo.

Enquanto isso não acontecer, seguimos assim — assistindo ao jogo no fim de semana e à explicação do jogo na segunda-feira, como se fossem dois programas diferentes. Que é mais ou menos o que viraram.

Leia também

Receba as novidades de Resenha Esportiva

As melhores publicações direto no seu e-mail. Sem spam.

Vale a leitura