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A guerra de notas oficiais virou o novo VAR — e Flamengo e Palmeiras estão perdendo os dois jogos

A guerra de notas oficiais virou o novo VAR — e Flamengo e Palmeiras estão perdendo os dois jogos

Teve rodada, teve Copa do Brasil, teve gol. E o assunto do fim de semana foi comunicado oficial.

O Flamengo publicou uma nota no sábado, 1º de agosto, respondendo ao posicionamento do Palmeiras sobre a denúncia apresentada pelo STJD contra o meia Maurício, por uma entrada considerada violenta no jogo em que o time alviverde venceu o Vitória por 4 a 0. No domingo, antes da vitória por 3 a 0 sobre o Fortaleza pela Copa do Brasil, a presidente Leila Pereira devolveu: chamou a manifestação rubro-negra de "cara de pau" e disse que o texto não tinha "pé nem cabeça".

Dois dos clubes mais poderosos do futebol brasileiro, no mês mais decisivo da temporada, dedicando energia institucional a escrever um sobre o outro.

O que cada lado disse

A nota do Flamengo sustentou que "consolidou-se entre torcedores, profissionais do futebol e parte significativa da opinião pública a percepção de que um determinado clube vem sendo reiteradamente beneficiado por decisões de arbitragem". Para embasar, citou levantamentos estatísticos do VAR desde 2020, apontando que o Palmeiras acumula o maior número de decisões alteradas a seu favor. O clube defendeu ainda que árbitros sejam responsabilizados por erros graves e por não coibir pressões excessivas durante as partidas.

Leila rebateu justamente no ponto da estatística — e, é preciso reconhecer, com um argumento que se sustenta em pé: se o Palmeiras lidera o ranking de intervenções favoráveis do VAR, isso não prova favorecimento. Prova que a arbitragem de campo errou contra o Palmeiras mais vezes, e que o vídeo corrigiu.

É o tipo de contra-argumento que deveria encerrar a discussão. Não encerrou, porque a discussão nunca foi sobre o dado.

O problema da estatística que os dois lados usam

Aqui está o ponto que ninguém quer encarar: o número de intervenções do VAR não mede favorecimento em nenhuma direção. Ele mede erro de campo.

Um clube pode aparecer no topo dessa lista por três motivos completamente diferentes. Porque tem mais jogadas em áreas de decisão — quem ataca mais, gera mais lances de pênalti e impedimento. Porque enfrenta arbitragens piores. Ou porque, de fato, houve viés. Os três cenários produzem exatamente o mesmo número na planilha.

Usar esse dado como prova é, na melhor das hipóteses, ingenuidade estatística. Na pior, é escolher o recorte que serve à narrativa que já se queria contar — que é o que os dois lados fizeram, cada um com o seu.

E é por isso que a briga é infinita. Quando a evidência é ambígua, quem discute não está buscando conclusão. Está buscando munição.

Quando o clube vira porta-voz da arquibancada

O que mudou nos últimos anos não é a reclamação de arbitragem — isso é tão antigo quanto o futebol. O que mudou é o canal.

Antes, a reclamação saía do presidente na saída do vestiário, quente, no calor do jogo, e todo mundo entendia como o que era: desabafo. Hoje ela sai em PDF, com timbre, revisada por assessoria e departamento jurídico, publicada em horário calculado para render nos programas de domingo.

A diferença importa. Um desabafo é humano e prescreve. Um documento institucional é uma posição oficial do clube — e posição oficial é permanente, citável e, sobretudo, imitável. Uma vez que um clube grande normaliza o comunicado como arma, todos os outros precisam ter o seu, ou aceitam ficar em desvantagem na disputa de narrativa.

Foi assim que o futebol brasileiro ganhou uma competição paralela em que se joga com nota oficial e o placar é medido em repercussão.

Quem ganha com isso? Ninguém

Vamos ao balanço honesto.

O Flamengo não ganhou nenhum ponto na tabela com a nota. Ganhou a simpatia de quem já era rubro-negro — público que não precisava ser convencido — e forneceu ao rival a chance de responder com uma frase de efeito que rendeu manchete no país inteiro.

O Palmeiras não ganhou nada além do prazer momentâneo da resposta. E entrou num jogo de Copa do Brasil com a pauta da semana sendo a briga, não o time.

A arbitragem, que é o objeto real da queixa, não melhorou um centímetro. Nenhum árbitro será mais bem preparado porque dois clubes trocaram comunicados. Nenhum critério ficará mais uniforme.

E o torcedor neutro — aquele que sustenta audiência, patrocínio e o valor do produto — sai com a certeza reforçada de que o campeonato é decidido em outro lugar que não o campo. Que é, convenhamos, a pior coisa que se pode dizer de um esporte.

O que dava para fazer no lugar

Existe um caminho óbvio e chato, que é justamente por isso que ninguém segue: cobrar transparência de processo em vez de cobrar resultado.

Áudios de VAR divulgados integralmente e com rapidez padronizada, para todos os jogos e não só para os polêmicos. Critério público e escrito para escalação e para afastamento de árbitros. Publicação de erros reconhecidos com a mesma pompa com que se publicam as notas.

Nada disso é revolucionário e tudo isso já existe em algum lugar do mundo. A diferença é que exigir processo dá trabalho, demora e não rende manchete no domingo — enquanto a nota oficial rende na mesma tarde.

O Palmeiras tem pela frente um agosto que vale a temporada: mata-mata na Copa do Brasil, Libertadores e a liderança do Brasileirão para defender. O Flamengo tem seus próprios compromissos. Nos próximos trinta dias, um dos dois vai levantar alguma coisa e o outro vai olhar de fora.

Apostar que a diferença virá do que foi escrito em comunicado, e não do que for feito em campo, seria o único erro de arbitragem realmente indiscutível dessa história.

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